Tudo o Que Sou

Tudo o Que sou, é o que Imito do Melhor do que Quero Ser.

Sábado, Março 07, 2009

Reencontro

Longa conversa.
«Entao já moras sozinha?».
«hm, acho que sei mais ou menos onde é, passo por aí as sete e meia, pode ser?».
«ok, fica combinado. Beijinho, foi bom rever-te».
«Xau».

Desligou o telemóvel confuso, olhou para o relógio. Tinha estado praticamente quatro horas e meia a falar com ela. Apenas quatro horas e meia, destinadas a um tão breve resumo de tantos anos passados, sem notícias. Outrora uma relação tão forte e tão sólida, foi sendo quebrada pela força do tempo e pela distância de duas fronteiras.

As memórias ofuscaram a semi-escuridão do seu quarto. Tinham ambos dezanove anos da última vez que se encontraram num jantar de despedida. Nervosos mas descontraídos, sabiam que ocasiões daquelas não teriam mais vezes, brevemente. Já tinham tomado consciência que para cada vida, está destinado um caminho diferente, e assim teve que ser. Saídos da escola, cada um escolheu o seu fim, e o seu inicio. Universidade, emprego.
Viveram aquele jantar como o primeiro das suas vidas, e como o último.

Agora, seis anos depois, reencontraram-se.
Ele estava de volta a Portugal, de volta às origens, pela primeira vez que o destino lho possibilitara. Tinha tirado dois meses de férias, acumulados com suor, para sentir o espirito do país que o acolhera e criara. Estava de volta, à mesma vila onde cresceu, e onde a sua família permaneceu, pronta para o hospedar e receber.
Ela tinha acabado a universidade havia acerca de um ano, e também entrara pouco depois para o mercado de emprego. Estava uma mulher.
Tornaram-se ambos adultos, nas feições, e na personalidade. Aperceberam-no, quando ela desceu a rua e eles se cruzaram, parando atrás um do outro. Viraram-se e olharam-se fixamente, numa tentativa de confirmação de identidade. E reconheceram-se pelo andar, pelo vestir, pelos olhos um do outro que tão bem conheciam. E as feições... Não eram as mesmas, e mesmo assim eram as mesmas que tantas vezes haviam tocado.
Sim, era ela, sem dúvida. E sim, aquele era só podia ser mesmo ele.

Após tantos anos, ambos o sentiram, um ao outro, tão forte como outrora. O abraço surgiu antes da palavra. O sentimento sobrepôs a confusão, a distância, a pressa. Só o abraço ali ficou, e durou, num eterno momento, enquanto as lágrimas da saudade travaram o tempo.

E com o telemóvel ao lado, atirou a cabeça para o travesseiro, digerindo todo aquele embaraço confuso enquanto olhava fixamente a luz do candeeiro.

E sentiu uma estranha dor.

2 comentários:

something disse...

porque e que eu nao tenho conhecimento deste texto? :o

something disse...

um sentimento verdadeiro, nem a distancia apaga verdadeiramente.